Recomeço com gosto de fim
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Às vezes, o recomeço não tem cara de manhã ensolarada nem trilha sonora inspiradora. Ele chega como quem invade — sem bater à porta, sem pedir licença. Um susto. Um corte. Um silêncio que grita.
Na maioria das vezes, não escolhemos recomeçar. Somos empurrados. A vida, com seus modos tortos, nos força ao movimento. E, curiosamente, o gatilho quase sempre tem um nome: confiança.
É estranho perceber que quem nos deu a mão para subir foi o mesmo que depois soltou — ou empurrou. E o chão, quando chega, não perdoa. Machuca. Faz pensar. Mas também acorda. Porque é na queda que a gente enxerga o que antes não queria ver.
A confiança que depositamos no outro, quando quebrada, rasga mais do que vínculos — rasga planos, futuros e, às vezes, até a própria imagem que tínhamos de nós mesmos. Mas há algo de valente em quem se refaz. Em quem levanta com poeira no rosto e decide seguir.
O recomeço, por mais forçado que seja, é uma chance. Talvez não de fazer tudo de novo, mas de fazer diferente. Com mais cuidado, com mais verdade. E, principalmente, com mais presença — da gente com a gente.
Talvez, no fim, seja essa a maior das lições: recomeçar não porque o outro falhou, mas porque merecemos continuar.
Brisa Coelho